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Resultado das midterms pode influenciar relação Trump-Brasil

Por Redação •

Com o Congresso dos Estados Unidos sendo dominado a partir de janeiro pela oposição ao presidente Donald Trump, analistas projetam que poderá haver mudanças na relação do atual morador da Casa Branca com o Brasil e os demais países da América Latina.A avaliação é que pode ocorrer uma escalada de Trump na política externa, mas não na vizinhança e sim no Oriente Médio, onde o republicano sinalizou durante a campanha das midterms que deve retomar os bombardeios em grande escala contra o Irã.Natali Hoff, professora do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse em entrevista à Gazeta do Povo que, com a perspectiva de “paralisia” interna da política nos Estados Unidos, com o Congresso freando as medidas de Trump e este respondendo com vetos a projetos aprovados no Legislativo, o presidente republicano pode se tornar mais agressivo na política externa.“O que historicamente se observa nos Estados Unidos é que, quando você tem um Congresso de maioria do partido contrário ao do presidente, que começa a limitar a atuação desse presidente no âmbito doméstico, muitas vezes a política externa é a área na qual ele acaba tendo mais opção para atuar”, disse a analista.“Isso porque os Estados Unidos, assim como o Brasil, concentram muitos dos poderes da política externa no Executivo. Principalmente as questões relacionadas aos conflitos armados”, explicou Hoff.“Talvez a gente vá ver mais essa projeção de força no Oriente Médio, com o Irã, ainda mais a depender de como vão ficar os resultados em Israel”, acrescentou, em referência às conversas para formação de governo após nenhum bloco conseguir maioria na eleição parlamentar israelense da semana passada.Para o Brasil e a América Latina, a perspectiva é de uma relação mais pragmática. “Com o Brasil, até porque os democratas devem abrir investigações e tentar limitar as questões das tarifas, talvez possa haver um campo de possibilidade para um maior pragmatismo”, disse Hoff, que acrescentou que a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição brasileira e a dos republicanos nas midterms em um intervalo de apenas nove dias também podem influenciar Trump a seguir esse caminho.“Trump tinha uma política com o [plano de segurança regional] Escudo das Américas, com a Doutrina Donroe, de tentar estabelecer no hemisfério uma zona de Estados alinhados aos Estados Unidos, e parte importante desse processo era conseguir que a eleição brasileira pendesse para o grupo que o apoia, que no caso era o grupo de Flávio Bolsonaro”, pontuou a analista.“O governo Trump vai ter que lidar com esses dois fatores: essas limitações internas geradas por um Congresso dominado pelos democratas e o fato de que no Brasil a gente teve um resultado eleitoral que não foi favorável aos seus interesses na região. Isso pode levar a uma tendência de um maior pragmatismo nas relações com o Brasil”, argumentou Hoff.Integrantes do governo Lula falaram à emissora SBT News que a avaliação da gestão petista é que a derrota nas midterms poderá fazer Trump recuar de uma “linha mais ideológica” nos últimos dois anos de mandato, “tirando o pé do acelerador em medidas de interferência na política dos países latino-americanos, por exemplo”.VEJA TAMBÉM:Em crise após derrota nas midterms, republicanos pedem mudança de rota a TrumpOs recados das urnas a Trump após a derrota dos republicanos nas midtermsArticulador da Doutrina Donroe, Rubio deve ser visado por democratasIgor Lucena, economista, doutor em relações internacionais e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), disse em entrevista à Gazeta do Povo que o controle dos democratas das duas casas do Congresso “tende a reduzir a margem de articulação do presidente e sua capacidade ofensiva em determinadas frentes”.“No campo comercial, esse enfraquecimento pode diminuir o espaço para novas medidas de pressão contra outros países, especialmente por meio de tarifas e sanções econômicas. Nesse sentido, não acredito que os Estados Unidos devam impor novas tarifas sobre as exportações brasileiras. Mais fragilizado e sem o comando das duas casas, o governo Trump tende a ter menos capacidade política para sustentar novas ofensivas comerciais”, disse Lucena.Porém, o analista projetou que não deve haver uma aproximação entre Estados Unidos e Brasil. “Trump ainda possui autonomia para conduzir a política externa, independentemente da composição do Congresso, e o Brasil não deve ser uma prioridade dos democratas na resolução de questões bilaterais. Assim, embora a nova configuração possa reduzir o risco de novas pressões comerciais, a tendência é que a relação entre os dois países continue sem avanços significativos até o fim do mandato dele”, afirmou.Outro fator que pode levar a um esfriamento na pressão da gestão Trump sobre governos de esquerda latino-americanos, como o brasileiro, é o fato de o secretário de Estado americano, Marco Rubio, estar sendo cotado para ser o candidato republicano à presidência em 2028 – dessa forma, acuá-lo atenderia a interesses eleitorais da oposição.Durante a campanha presidencial brasileira, parlamentares democratas enviaram cartas a Rubio, nas quais alegaram que medidas direcionadas ao Brasil – como as tarifas a produtos brasileiros e a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas – foram tentativas de interferir na eleição.Depois que Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, a oposição questionou novamente o chefe da diplomacia americana sobre eventual ajuda ao senador para que deixasse o Brasil, o que foi negado por Rubio.O historiador Lucas de Souza Martins, pesquisador da Universidade Temple, na Filadélfia, disse em entrevista à BBC que, com maioria nas duas casas do Congresso dos Estados Unidos, os democratas controlarão comissões e devem “fazer uma oposição especificamente na política externa, porque ali está um potencial adversário” daqui a dois anos.“Consequentemente, a América Latina vai se impor como uma agenda dessa oposição democrata exatamente porque, para Rubio, a América Latina sob domínio americano é uma tarefa específica dele, delegada diretamente pelo presidente dos EUA”, afirmou Martins.

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