Pequeno no tamanho, mas com uma concentração expressiva de nutrientes, o camu-camu é considerado o fruto com maior teor de vitamina C do mundo. Também conhecido como caçari ou araçá-d’água, reúne propriedades nutricionais que despertam o interesse de pesquisadores e tem potencial para ampliar espaço na produção de frutas da Amazônia.
A cada 100 gramas, o camu-camu contém 2.606 miligramas de vitamina C, teor superior ao encontrado na maioria das plantas cultivadas. Segundo Jaime Paiva Lopes Aguiar, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que estuda o fruto há 15 anos, a concentração do nutriente supera a de frutas conhecidas.
“O camu-camu tem vitamina C três vezes mais que a acerola, 20 vezes mais do que a laranja e 30 vezes mais do que o limão”, compara o pesquisador. Aguiar também destaca a presença de antioxidantes.
“Estes compostos apresentam propriedades terapêuticas, prevenindo enfermidades cardiovasculares, circulatórias, cancerígenas, além de estarem ligados ao retardamento do envelhecimento. Contribui também na redução de doenças crônicas como diabetes, hipertensão e obesidade”, elenca o pesquisador.
Camu-camu resiste por meses submerso e também cresce em terra firme
O camu-camu cresce naturalmente nas margens de rios e lagos, sobretudo em águas pretas, pela decomposição de matéria orgânica. Pertencente à família Myrtaceae, desenvolve-se como arbusto ou pequena árvore e tem uma característica incomum: em seu habitat natural, suporta permanecer submerso por quatro a cinco meses.
A espécie também se adapta ao cultivo em terra firme, o que amplia as possibilidades de produção. Nesses locais, a floração ocorre praticamente durante todo o ano, embora os menores índices de produção se concentrem entre abril e julho. Na natureza, a frutificação ocorre principalmente de novembro a março.

A adaptação a diferentes áreas de cultivo é uma das características destacadas por Aguiar. “O camu-camu é uma planta típica do clima tropical quente. Apesar de ser nativa da beira d’água, pode ser cultivada em área degradada de pastagem ou capoeira de terra firme, pois não é exigente em solos ácidos de baixa fertilidade, mas necessita de adubação e correção do solo”, explica.
Pesquisas buscam ampliar aproveitamento do camu-camu
O potencial do camu-camu entrou na agenda do Inpa em 1980, quando a espécie passou a integrar a lista de prioridades de pesquisa entre as frutíferas nativas da região.
Desde então, os estudos abrangem técnicas de propagação, floração, frutificação, espaçamento, adubação, manejo, maturação e processamento dos frutos. “A iniciativa busca ampliar o aproveitamento da espécie, contribuir para a alimentação da população e gerar divisas para a região”, afirma Aguiar.
Apesar do valor nutricional, o fruto ainda tem uso limitado entre os moradores da Amazônia. Em algumas comunidades, é consumido como tira-gosto ou utilizado como isca para peixes, o que também contribui para a dispersão das sementes.
O cultivo começa pela semeadura, que pode ser feita em areia, terriço ou serragem semicurtida. Quando as mudas atingem cerca de oito centímetros de altura, são transferidas para sacos de polietileno com uma mistura de terriço e esterco animal bem curtido. Entre oito e 12 meses de idade, as mudas estão prontas para o plantio definitivo.
Camu-camu rende até 10 toneladas por hectare e é ingrediente de doces
Segundo os pesquisadores do Inpa, o plantio em campo exige covas com 40 centímetros de comprimento, largura e profundidade, distribuídas em espaçamento de quatro metros por quatro metros. A espera pela primeira colheita é de aproximadamente três anos após o estabelecimento das plantas no campo.
A retirada dos frutos é manual e ocorre de duas a três vezes por semana. Em plantações bem estabelecidas, nesse espaçamento, a produtividade estimada chega a dez toneladas por hectare ao ano.
Os frutos são arredondados, medem de 10 a 32 milímetros de diâmetro e apresentam tons vermelhos ou róseos. Quando atingem o estágio final de maturação, adquirem coloração roxo-escura.
A acidez elevada dificulta o consumo in natura, mas abre espaço para diferentes usos na alimentação. O camu-camu serve de matéria-prima para refrescos, sorvetes, picolés, geleias, doces e licores, além de ser utilizado no preparo de tortas e sobremesas.

Quilo da fruta chega a R$ 130 em centrais de abastecimento
O processamento em polpa congelada é uma alternativa para comercializar o camu-camu em locais distantes ou manter a oferta do produto por períodos prolongados.
De acordo com os pesquisadores do Inpa, a transformação do fruto em polpa amplia as possibilidades de aproveitamento da produção e facilita sua conservação. A medida também contribui para levar o camu-camu a mercados distantes das áreas nas quais é cultivado.
Embora ainda não alcance a escala comercial de frutas como banana, laranja e abacaxi, o camu-camu encontra espaço no mercado. O quilo é comercializado entre R$ 100 e R$ 130 na Ceasa do Paraná e na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), onde o fruto também aparece sob o nome de caçari.
“Nas feiras de Manaus e em alguns municípios do Amazonas o quilo é encontrado por R$ 10”, diz o pesquisador do Inpa.


