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    A formação de um discípulo

    JornalismoDe Jornalismo11 de novembro de 2025Nenhum comentário5 minutos lidos
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    Desemprego, afastamento da política, frustração, desilusão e descrédito nas instituições são traços que atravessam a juventude em todos os continentes. A geração Z, nascida entre 1997 e o início de 2010, está impulsionando mudanças disruptivas em diversas áreas. É a primeira a viver inteiramente na era digital — hiper conectada, globalizada e, paradoxalmente, profundamente insegura quanto ao futuro.

    Enquanto seus pais acreditavam na ascensão social e na estabilidade profissional, os jovens de hoje enfrentam um horizonte de incertezas. Estudam mais, ganham menos e vivem num mercado corroído pela automação e pela informalidade.  São avessos a burocracias e hierarquias verticais rígidas. Buscam ambientes de trabalho mais abertos e transparentes, onde possam expressar suas opiniões e serem valorizados como indivíduos completos. Demonstram coragem e ousadia em suas escolhas, não se limitando a modelos preestabelecidos. São menos consumistas do que as gerações anteriores, preferindo marcas que estejam alinhadas com seus valores pessoais. São mais abertos e vulneráveis sobre questões de saúde mental, esperando que empregadores e a sociedade em geral abordem esses desafios de forma proativa.

    A economia global, que prometia integração, trouxe precariedade. Daí nasce o desencanto estrutural: a sensação de caminhar sem chão. O fenômeno é planetário. No Quênia, multidões de jovens tomam as ruas de Nairóbi contra o aumento de impostos e a corrupção. No Marrocos, estudantes marcham denunciando o contraste entre os investimentos bilionários em estádios para a Copa do Mundo e o abandono da saúde e da educação. Em Madagascar, protestos contra apagões e desemprego terminam em confrontos violentos. No Nepal, jovens reagem à censura digital (que levou a protestos que ganharam impulso com denúncias de corrupção) e à falta de oportunidades; no Togo, enfrentam reformas constitucionais que perpetuam elites no poder.

    Na Europa, a inquietação também cresce. Na Sérvia, estudantes transformam uma tragédia local — o desabamento de uma estação de trem — em catalisador de um amplo movimento cívico contra o autoritarismo e a corrupção. Na França, o movimento juvenil “Bloquons tout” (Bloqueemos tudo) expressa a exaustão de uma geração diante da austeridade econômica e da perda de horizontes. A juventude europeia, mais instruída e mais conectada, já não acredita que a política seja o caminho para mudar o mundo.

    Na América Latina, a onda de descontentamento segue o mesmo ritmo. No Peru, jovens desafiam o estado de emergência para exigir reformas políticas e previdenciárias, se mobilizam e levam à destituição da presidente Dina Boluarte, simbolizando o colapso da confiança nas instituições. No Chile, as manifestações estudantis dos últimos anos seguem vivas em movimentos que pedem um novo pacto social. Mesmo nos Estados Unidos, onde o voto jovem foi decisivo em eleições recentes, cresce a frustração com o bipartidarismo e a lentidão das transformações.

    Sofia Ong’ele, diretora de estratégia da organização americana Gen Z for change, em depoimento ao jornalista Gabriel Barnabé (“Geração Z usa redes sociais para ir às ruas e derruba governos pelo mundo” (FSP/3/11/2025), constata: “nunca houve tantos movimentos sem liderança acontecendo ao mesmo tempo. Isso é novo e estamos aprendendo em tempo real o que vem depois”.

    O fato é que a política, para essa geração, perdeu o poder de sedução. Cresceram vendo escândalos, promessas quebradas e líderes que falam uma língua morta. O ceticismo virou instinto de sobrevivência. A descrença, forma de autodefesa. Ainda assim, não são apáticos: protestam, mas de outro modo.

    A rebeldia se manifesta nas redes. O protesto é feito de hashtags, boicotes, ironias e vídeos de poucos segundos. É uma política de causas, não de partidos; de valores, não de ideologias. Lutam por meio ambiente, diversidade, equidade e ética digital. A emoção substitui o discurso. Significa que, na era das redes sociais e da cultura digital, a aprovação e a rejeição sociais assumiram novas formas de expressão e impacto, desvinculando-se, em parte, de suas origens práticas para se tornarem instrumentos de validação e julgamento moral em massa.

    O paradoxo é evidente: essa geração, moldada pela tecnologia, começa a rebelar-se contra ela. Desativa notificações, denuncia manipulações, abandona redes. É um protesto contra o próprio sistema que os formou — um grito por autonomia e silêncio num mundo saturado de ruído.

    O desencanto político tem, contudo, um lado positivo. Ao rejeitar as velhas formas de poder, a geração Z abre caminho para novas experiências de cidadania. Surgem coletivos locais, startups sociais e comunidades digitais que testam modos de convivência mais éticos e colaborativos. O engajamento migra do palanque para o cotidiano, da ideologia para a prática.

    O desafio das democracias sugere reconectar-se a esses jovens. Governos e instituições precisam falar a língua da transparência, da verdade e da coerência. Caso contrário, continuarão perdendo o que mais importa: a confiança.

    Trata-se de uma geração que quer justiça, sentido e coerência. Por trás das telas, pulsa a energia de quem não quer apenas consumir o mundo, mas reinventá-lo. O futuro político dependerá de transformar esse descontentamento em força criadora — e de ouvir, com humildade, o que o silêncio dos jovens anda dizendo nas ruas de Katmandu, Casablanca, Lima, Santiago e até em Nova Iorque, onde a futura primeira-dama, Rama Duwaji, de 28 anos, esposa do recém eleito prefeito, Zohran Mamdani, é pertencente à geração Z.

    A geração é o paradigma de um novo tempo, por estar redefinindo as normas sociais, os valores e o mercado de trabalho.

    *Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

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