Apesar da forte presença masculina na agropecuária, cada vez mais mulheres têm encontrado espaço para construir trajetórias dentro do setor. Dados do Novo Caged de janeiro de 2026 mostram que, dos 10.074 empregos gerados na área no período, 9.902 foram preenchidos por homens e 172 por mulheres, evidenciando o desafio que elas ainda enfrentam para ocupar postos de trabalho no campo.
Mesmo diante do cenário desigual, as mulheres seguem em diferentes frentes do setor, seja no campo ou na comunicação empresarial, e enfrentam desafios que vão desde o preconceito até limitações estruturais. Ainda assim, seguem abrindo caminho em um ambiente historicamente masculino.
A trajetória de Daniela Ferreira Tomaz, de 41 anos, é um exemplo disso. Classificadora de grãos, ela conta que a ligação com o agro começou ainda na infância, influenciada pelos avós pecuaristas.
“Eu sempre admirei muito o campo e a força que existe nesse setor, principalmente a importância que ele tem para o nosso país”, contou em entrevista ao Primeira Página.
Com o tempo, o interesse virou profissão. Daniela fez cursos de qualificação e hoje percorre fazendas para realizar a classificação de grãos, atividade essencial para garantir a qualidade e o valor da produção agrícola.
Mas o caminho não foi livre de obstáculos. Segundo ela, o preconceito ainda existe e, muitas vezes, a própria estrutura das propriedades rurais não está preparada para receber mulheres.
“Quando eu vou fazer a classificação em fazendas, nem todas têm alojamento para mulheres. Na maioria das vezes eu preciso ficar em hotel na cidade mais próxima”, relata a profissional.
Apesar disso, Daniela diz que prefere focar no trabalho e na dedicação para conquistar respeito no setor. Ela também percebe mudanças acontecendo no agro e destaca o crescimento da presença feminina em funções antes ocupadas apenas por homens.
“Eu faço o meu trabalho com carinho e dedicação. Acho que através disso a gente consegue conquistar o nosso espaço. Hoje eu acompanho muitas mulheres pilotando máquinas agrícolas, trabalhando como mecânicas de máquinas de grande porte. Aos poucos isso vem mudando”, defendeu a classificadora.
O sonho de Daniela, inclusive, é operar máquinas durante a safra. Para isso, ela buscou capacitação e participou de cursos voltados exclusivamente para mulheres.
“Eu espero um dia ter a oportunidade de operar uma máquina em uma fazenda e mostrar que eu também consigo”, diz.
Em diferentes frentes
Se no campo a presença feminina ainda enfrenta barreiras, em outras áreas do agronegócio elas também ajudam a fortalecer o setor. É o caso de Andressa Santos Corrêa, de 36 anos, que atua na comunicação de uma empresa de fertilizantes.
Ela trabalha há 19 anos na empresa da família e passou por diversos setores até chegar ao marketing, área onde hoje ajuda a construir a imagem da companhia no mercado. Para Andressa, as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço justamente por trazerem uma visão mais ampla para a gestão e organização das empresas.
“Comecei na recepção, passei por vários setores e fui me profissionalizando até chegar na comunicação, que é algo que eu gosto muito. A mulher tem um olhar sistêmico, consegue olhar a fazenda ou o setor como um todo. Isso faz com que ela ocupe os espaços com muita eficiência”, avalia Andressa.
Segundo ela, a presença feminina também cresce em cargos de liderança. Na empresa onde trabalha, por exemplo, há mais mulheres do que homens em posições de gestão. Além do trabalho interno, Andressa também participa de iniciativas que buscam fortalecer a rede de mulheres no agronegócio
Para especialistas e profissionais da área, a ampliação de cursos de capacitação e treinamentos voltados para mulheres é um dos caminhos para reduzir a desigualdade no setor. Além de qualificar a mão de obra, essas iniciativas ajudam a incentivar a entrada feminina em atividades tradicionalmente masculinas.


