No dia 8 de março, geralmente as mulheres recebem flores. É um gesto bonito. Mas talvez também seja um símbolo involuntário da forma superficial com que muitas vezes tratamos um problema que é profundamente estrutural.
Nos últimos anos consolidou-se uma narrativa quase heroica sobre a mulher contemporânea. É a chamada “mulher maravilha”: aquela que trabalha, cuida da casa, educa os filhos, sustenta emocionalmente a família, administra a rotina doméstica e ainda precisa provar, diariamente, sua competência profissional em ambientes que historicamente não foram construídos para ela.
À primeira vista, parece um elogio. Na prática, muitas vezes é apenas uma nova forma de cobrança. Porque por trás da ideia da mulher que “dá conta de tudo” existe uma realidade que raramente é dita com franqueza: muitas mulheres estão simplesmente exaustas.
Mas essa exaustão não nasce apenas da multiplicidade de funções. Ela também é consequência de uma cultura que ainda naturaliza pequenas formas de desvalorização feminina. Piadas que diminuem. Comentários sobre aparência. Questionamentos velados sobre capacidade.
Situações que, isoladamente, podem parecer pequenas. Mas que, repetidas diariamente, constroem mentalidades. E mentalidades constroem culturas. É dessa mesma lógica que nascem frases que infelizmente ainda ouvimos quando uma mulher sofre violência.
“Será que ela não contribuiu para isso?”
“Mas ela estava traindo o marido, aí não dá né?”
“Essa gosta de apanhar… pediu para morrer.”
São frases duras, mas são reais. Aparecem em conversas informais, nas redes sociais e, muitas vezes, até em ambientes que deveriam ser de acolhimento e proteção. Quando a sociedade passa a discutir o comportamento da vítima antes de condenar a violência do agressor, algo profundamente errado está acontecendo.
O Brasil avançou muito no campo jurídico nas últimas décadas. A Lei Maria da Penha representou um marco na proteção das mulheres contra a violência doméstica. O feminicídio foi tipificado como crime. As penas foram ampliadas. Sob a perspectiva normativa, houve progresso. Mas, a experiência concreta mostra algo que o próprio direito reconhece como limite: lei nenhuma transforma uma cultura sozinha.
E é por isso que, apesar dos avanços legais, a realidade continua dura. Mulheres continuam sendo assassinadas. As meninas continuam sendo violentadas. Todos os dias. Questão é que a violência contra a mulher não começa na agressão física.
Ela começa muito antes – nas pequenas permissões sociais que, aos poucos, constroem um ambiente em que a desigualdade se naturaliza.
Durante muito tempo repetimos que a mudança virá com a nova geração. Pra mim há algo profundamente incômodo nessa ideia. Porque ela parece nos autorizar a esperar. Esperar que o tempo resolva. Esperar que as próximas gerações façam aquilo que nós ainda não conseguimos fazer. Acontece que enquanto esperamos, mulheres continuam morrendo. Por isso, talvez a reflexão mais honesta neste 8 de março seja admitir que não podemos mais tratar essa transformação como um projeto de longo prazo.
Não podemos esperar uma geração inteira. Essa mudança precisa acontecer agora. Flores são bem-vindas. Mas respeito não pode ser um gesto simbólico de um único dia. Respeito é uma prática cotidiana – e essa mudança não pode mais ser adiada. É todo dia. São pequenas coisas. Precisamos mandar esse recado.
*Xênia Artmann Guerra é Advogada, sócia do escritório Mascarello e Guerra Advocacia.


