As mulheres representam 30% da força de trabalho no campo brasileiro. Mesmo assim, a desigualdade ainda marca o dia a dia de quem produz. O último Censo Agropecuário, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que elas ganham menos que os homens, enfrentam dupla jornada e, muitas vezes, têm o trabalho invisibilizado dentro da propriedade rural.
Em Mato Grosso, essa realidade aparece no cotidiano de produtoras como dona Pedrina. A tradição da farinha de mandioca começou na infância, acompanhando o ritmo da família.
“É uma história bem antiga, dos mais velhos. Minha avó contava que ela já fazia farinha e na casa dela, era uma casa que recebia muita gente. Em uma semana, um fazia farinha, e nas outras semanas era outra pessoa. Desde criança a gente cresceu com isso,” conta Pedrina Silva.
Hoje, ela mantém a produção praticamente sozinha, conciliando plantio, colheita, horta, cuidados com o gado e tarefas domésticas. Com o apoio de um programa estadual voltado à agricultura familiar, conseguiu montar sua própria estrutura para fabricar o produto e complementar a renda.
Dupla jornada e falta de apoio
A trajetória de Pedrina se repete entre muitas mulheres do campo, que precisam administrar cultivo, criação de animais e cuidados da casa sem dividir responsabilidades nem ter acesso facilitado a crédito.
A produtora rural Eliete Rosa exemplifica o desafio de conciliar as atividades, como o cultivo de abacaxi e a horta.
“Quando eu vou mexer com abacaxi, eu mexo só com ele. As outras atividades, que nem a minha horta. a gente tem que estar dando água, arrumando, roçando [todos os dias]. Mas é muito díficil, não é fácil pra uma mulher sozinha, tá cuidando disso tudo aqui não,” desabafou Eliete.
Eliete Rosa ressalta que, com mais incentivo, seria possível ampliar a produção: “Eu podia contratar um trator para fazer a limpeza no terreno, plantando mais abacaxi, mais cana”.
Desafio da invisibilidade
Em diversos casos, o trabalho feminino sequer é reconhecido oficialmente, já que a titularidade de documentos como o Cadastro da Agricultura Familiar (CAF) costuma ficar no nome dos homens.
Segundo a técnica da Empaer (Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural), Jô Escame, a produção das mulheres nem sempre é creditada a elas:
“É uma espécie de invisibilidade, pois é um sistema que sempre ele [o homem] que comercializa, já ela fica na propriedade de modo que nem sempre é vista e consegue vincular aquela produção a ela,” explica Jô Escame.
Essa invisibilidade, de acordo com especialistas, contribui para a desigualdade salarial e limita o alcance de políticas públicas.
Políticas de inclusão
Para tentar mudar esse cenário, Mato Grosso tem desenvolvido ações como programas de apoio financeiro à agricultura familiar e sistemas de inspeção.
A técnica da Empaer destaca a importância do Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), que identifica a mulher como agricultora familiar, e o sistema de inspeção de agroindústria de pequeno porte.
Com essa inspeção, a mulher consegue regularizar a produção artesanal (queijos, doces e outros produtos) e adquirir o selo para acessar o mercado, garantindo maior independência financeira.
Apesar dos avanços, produtoras defendem que o acesso a essas políticas ainda precisa ser expandido. Enquanto isso, mulheres como dona Pedrina seguem sustentando a produção, preservando tradições e mostrando que continuam sendo protagonistas no campo mato-grossense.
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