O PAA Indígena (Programa de Aquisição de Alimentos) tem transformado a produção agrícola nas aldeias de Dourados, onde alimentos cultivados nas próprias comunidades passam a reforçar a alimentação escolar e a renda das famílias. O programa funciona com a compra e doação simultânea dos produtos, priorizando indígenas em situação de vulnerabilidade alimentar.
Ao mesmo tempo em que garante o combate à insegurança alimentar, o PAA fortalece práticas agrícolas tradicionais, reconhecendo o papel da agricultura familiar indígena na economia regional.
Na Reserva Indígena de Dourados, agricultores que produziam apenas para subsistência agora conseguem comercializar parte da colheita. Alfredo Torres Medina, por exemplo, ampliou a área de plantio de dois para três hectares e estima produzir até oito toneladas. “A gente não tinha condições de vender para fora, foi ótimo para nós”, disse.
Quem acompanha de perto o avanço é a Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), que oferece assistência técnica para melhorar o manejo sem interferir nos costumes das aldeias. Segundo o engenheiro agrônomo Atílio Eduardo Pioli, a iniciativa valoriza a produção indígena e garante escoamento. Ele explica que, mesmo considerado pequeno, o valor de até R$ 15 mil anuais traz segurança para investir e deixar de produzir apenas para consumo próprio. A equipe ajusta o manejo respeitando tradições, com mudanças pontuais baseadas no conhecimento técnico e no clima.
Jonas Valério, produtor de mandioca, milho, abóbora e batata conta que as caixas com alimentos são montadas ainda na lavoura, onde os produtos são selecionados e lavados antes de chegar à escola.
Caixas preparadas para chegar nas escolas (Foto: Chico Gomes)
Na escola Tengatuí Marangatu, a maior da aldeia com 936 alunos, a entrega dos alimentos tem impacto direto na rotina das famílias. A diretora Joane Freitas Valério explica que os estudantes levam para casa os produtos cultivados nas aldeias. Ela afirma que o PAA é hoje a principal fonte de alimentação das crianças e que a possibilidade de distribuir alimentos locais como a mandioca, milho, abóbora e até pão, fortalece o vínculo com a própria comunidade.
O benefício também aparece no dia a dia das famílias. Tânia Porto Benites relata que o apoio recebido da escola faz diferença. “Muitas vezes a gente não tem dinheiro suficiente para comprar, mas a gente recebe e as crianças ficam muito felizes”, conta.
Para muitas mulheres, o programa também representa autonomia. A presidente da Associação Senó KunhãKuera, Midian Valério, destaca a relevância do PAA.
“Para quem nunca passou fome, ganhar uma mandioca ou abóbora não faz diferença, mas para quem passa fome ou sofre necessidade, é de extrema importância”, afirma.
Ela reforça que as mulheres indígenas têm potencial produtivo, mas a barreira é a falta de incentivo financeiro. Segundo Midian, o PAA é subestimado por alguns por envolver agricultura familiar, mas tem papel fundamental no combate à insegurança alimentar. A associação busca incentivar mulheres a mudar suas realidades por meio do empreendedorismo.
Alimentos são distribuídos para os alunos (Foto: Chico Gomes)
Ampliação de projetos
Para a iniciativa, a Agraer protocolou 686 projetos junto à Semadesc, número superior ao registrado em 2023. Se todos forem aprovados, até 686 famílias indígenas poderão comercializar até R$ 15 mil cada, reforçando renda e autonomia produtiva. O programa abastece escolas e instituições socioassistenciais e incentiva a diversificação de cultivos, com mais de 38 alimentos produzidos.
Para muitos indígenas, como Queila Viana, da Aldeia Jaguapiru, os projetos representam esperança. Ela ressalta que a possibilidade de comercializar até R$ 15 mil traz autonomia e incentiva famílias inteiras a continuar produzindo batata, mandioca e milho.