Durante 28 anos, o britânico Karl Bushby transformou uma ideia considerada quase impossível em uma jornada de cerca de 50 mil quilômetros por alguns dos lugares mais extremos do planeta. Aos 57 anos, o ex-paraquedista do Exército Britânico concluiu a volta ao mundo a pé que começou em 1998, quando deixou Punta Arenas, no extremo sul do Chile, com destino à cidade de Hull, na Inglaterra, onde sua mãe mora.A chegada ao Reino Unido ocorreu em 5 de outubro de 2026, depois que Bushby atravessou a nado o Canal da Mancha e alcançou a praia de Shakespeare, perto de Dover. Restavam então cerca de 400 quilômetros até Hull.Ele chegou à cidade na última segunda-feira (02), encerrando a Expedição Goliath, como batizou a aventura.A ideia surgiu ainda nos anos 1990, depois que Bushby conheceu relatos sobre a possibilidade de atravessar o Estreito de Bering entre a Rússia e o Alasca. Ele traçou uma rota em um mapa e decidiu que faria o caminho de volta para casa sem recorrer a meios de transporte para avançar.Aos 29 anos, partiu do Chile com cerca de US$ 500. A expectativa inicial era completar a viagem em aproximadamente 12 anos. O percurso, entretanto, acabou levando mais que o dobro desse tempo.Uma viagem com regras própriasBushby estabeleceu duas regras para a expedição: não utilizar meios de transporte para avançar no trajeto e não voltar ao Reino Unido antes de concluir o percurso. Isso fez com que obstáculos geográficos, políticos e burocráticos precisassem ser enfrentados de maneiras pouco convencionais.Ao longo da rota, passou por:Argentina;Peru;Equador;Colômbia;Panamá;Costa Rica;Nicarágua;Honduras;El Salvador;Guatemala;México;Estados Unidos;Canadá.Depois, atravessou o Estreito de Bering e seguiu pela:Rússia;Sibéria;Mongólia;China;Turcomenistão;Cazaquistão;Azerbaijão;Geórgia;Turquia, antes de alcançar a Europa.Um dos trechos mais perigosos foi o Tapón del Darién, região de floresta, pântanos e rios entre Colômbia e Panamá. A área também era marcada pela presença de grupos armados.Ao longo de 28 anos, a expedição exigiu que Bushby enfrentasse condições extremas, mudanças de rota e longos períodos longe de casa antes da reta final até Hull, na Inglaterra. (Foto: Reprodução/Facebook/Karl Bushby)Para reduzir o risco de ser identificado como estrangeiro, Bushby contou à BBC que chegou a tingir os cabelos e a pele e a usar roupas velhas.“Você precisa abrir caminho por uma floresta densa”, explicou à BBC. Segundo ele, havia ainda sistemas fluviais, pântanos e o risco representado pela presença de grupos armados. Após chegar ao Panamá, foi detido e permaneceu preso por 18 dias.Em 2006, veio uma das façanhas mais arriscadas da volta ao mundo a pé. Bushby e o aventureiro Dimitri Kieffer atravessaram o Estreito de Bering sobre o gelo marinho, entre o Alasca e a Rússia.Para manter as regras de sua expedição, Bushby precisou transformar obstáculos geográficos em travessias. Em 2024, percorreu cerca de 300 quilômetros a nado pelo Mar Cáspio. (Foto: Reprodução/Facebook/Karl Bushby)Foram cerca de 240 quilômetros percorridos em 14 dias, enfrentando placas de gelo à deriva, água aberta e temperaturas próximas de 35 graus negativos.A dupla ainda foi detida ao chegar à Rússia por questões migratórias. Anos depois, problemas com vistos e restrições de entrada voltariam a interferir no percurso.Guerras, dinheiro e mares no caminho: os percalços da viagem à pé A viagem também sofreu interrupções provocadas pela crise financeira de 2008, que fez Bushby perder patrocinadores. A pandemia de Covid-19 e mudanças geopolíticas igualmente alteraram a rota planejada.Em determinado momento, após a Rússia negar um visto necessário para sua progressão, o britânico atravessou os Estados Unidos a pé em uma caminhada de aproximadamente 5.600 quilômetros até Washington, D.C., para chamar atenção para o problema. Em 2014, conseguiu autorização para retornar à rota original.Mais recentemente, a geopolítica obrigou Bushby a trocar novamente a terra pela água. Em 2024, ele atravessou o Mar Cáspio entre o Cazaquistão e o Azerbaijão, percorrendo aproximadamente 300 quilômetros em trechos ao longo de 31 dias, com apoio de nadadores e embarcações.Em 2025, chegou a Istambul, na Turquia, atravessando a pé a Ponte do Bósforo e passando da Ásia para a Europa. A etapa seguinte foi seguir em direção ao Reino Unido.O último grande obstáculo foi o Canal da Mancha. Como não recebeu autorização para utilizar um túnel de serviço do Eurotúnel, Bushby decidiu nadar. A travessia levou cerca de 20 horas, distribuídas em três dias, até que ele alcançasse a costa inglesa.Ao longo da jornada, o aventureiro percorreu mais de 48 mil quilômetros antes da etapa final e estima chegar a cerca de 50 mil quilômetros ao completar o percurso.À BBC, Bushby resumiu o principal aprendizado de quase três décadas na estrada: “A persistência é o mais importante”. Ele também afirmou que a experiência mudou sua percepção sobre as pessoas, depois de receber ajuda espontânea em diferentes países.A jornada, porém, teve um custo pessoal. Ao ser questionado sobre a parte mais difícil da viagem, Bushby não citou o frio, a fome ou os perigos do caminho, mas os relacionamentos. “Eu me apaixonei duas vezes, perdi essas pessoas e isso deixa marcas”, disse à BBC.Agora, depois de 28 anos, a maior preocupação é outra: voltar para casa e descobrir como será a vida depois da aventura. “Definitivamente é hora de colocar um ponto final”, afirmou.
Britânico completa volta ao mundo a pé após 28 anos e 50 mil km


